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domingo, 2 de agosto de 2015

CASA DO ESTUDANTE DE NATAL


No número 678 da Praça Coronel Lins Caldas, Cidade Alta, o velho portão de ferro ainda guarda as marcas de bala. Em 1935, o prédio construído na segunda metade do século 19, sede do Batalhão de Segurança, fora tomado pelo movimento que ficou conhecido como “Intentona Comunista” – levante de civis e militares que, em nome da Aliança Nacional Libertadora, se rebelaram contra o governo de Getúlio Vargas. Os vestígios da troca de tiros são o registro da história que a maior parte dos natalenses desconhece.

Mas antes de virar caserna e se transformar em palco da luta política, o prédio centenário em estilo neoclássico havia sido Hospital de Caridade e Escola de Aprendizes Artífices (embrião do atual IFRN). Depois do movimento comunista, passou a abrigar jovens infratores, até virar sede da Casa do Estudante do Rio Grande do Norte (CERN) em 1956. 


Foto: Elpídio Júnior
Fachada da Casa do Estudante do Rio Grande do Norte, no bairro de Cidade Alta.


A CERN, porém, já havia sido fundada há dez anos, em junho de 1946, funcionando inicialmente numa casa alugada na rua Seridó. A instituição nasceu num contexto de reivindicações e luta pela deposição de Getúlio Vargas e pela melhoria e democratização do sistema educacional do Estado. Mais tarde, instalada no prédio da Cidade Alta, abrigou a resistência estudantil contra a ditadura militar vigente no país após o golpe de 1964.

“A Casa do Estudante foi acompanhando as movimentações políticas que iam acontecendo no país e se tornou uma instituição importante, porque congregava jovens vindos de todas as regiões. Então, isso tinha um peso político grande”, explica o historiador João Maurício, que viveu na CERN entre os anos de 1999 e 2003.


Foto: Elpídio Júnior
João Maurício, historiador, morou na CERN de 1999 a 2003.


Ele argumenta que a CERN, desde sua fundação, assumia posições de vanguarda política. As lideranças da instituição defendiam “posições ousadas” para a época. “Não se restringia a pensar na casa em si, mas no contexto social, o que ela significava. Pensar o modelo de sociedade, o tipo de educação e como seria possível amenizar as desigualdades que existiam. Todas essas discussões eram canalizadas pela instituição”.

Durante o regime de exceção (1964-1985), a instituição sofria intensa pressão dos militares de plantão. O estudante e ativista político Emmanuel Bezerra dos Santos, militante dos movimentos de esquerda, presidiu a CERN após a eclosão do golpe. 

Em função da sua luta contra a ditadura, o líder estudantil terminou assassinado em 1973. Um jornal da cidade noticiou o fato, dizendo que o “terrorista” Emmanuel Bezerra havia sido morto numa troca de tiros com a polícia de São Paulo. O tempo lhe fez justiça e, nos dias atuais, o ativista é reconhecido nacionalmente como ícone da luta pela democracia. 

A Casa, como se nota, guarda muitas histórias. João Maurício conta que a transferência da rua Seridó para o prédio encravado entre o centro da cidade e o rio Potengi não foi pacífico. 


Foto: Reprodução/Elpídio Júnior
Fachada antiga da CERN.


“O governador à época era Cortez Pereira. Os estudantes já haviam pleiteado o prédio, mas ele se recusara a ceder. Um dia, na calada da noite, eles invadiram o prédio, obrigando o governador em exercício a concedê-lo aos estudantes. Este episódio da história me foi contado pessoalmente por Welington Xavier, um dos fundadores da Casa”, relata. 

O historiador defende que a instituição continua tendo um papel político importante, porém não compreendido pelos próprios morados e pela maior parte da população de Natal. Ele lamenta o uso “maniqueísta” e “eleitoreiro” que é feito da CERN. “A Casa não pode se limitar a ser depósito de estudantes do interior nem ser instrumento político em período de campanha”, protesta. 

Maurício enfatiza que um prédio, uma rua, ou uma pessoa, por exemplo, só é patrimônio pelo seu valor de memória, pelo que representa socialmente. “Não existe o patrimônio pelo patrimônio. Isto significa que, apesar de ser um prédio com uma arquitetura bonita, seu valor está na história, nas memórias que representa, não na construção. É este valor imaterial e subjetivo, capaz de provocar sensações e despertar emoções nas pessoas, que faz de qualquer patrimônio um patrimônio”, reflete.

O ex-morador da CERN diz que a instituição não recebe o devido reconhecimento em virtude da discriminação vigente contra a própria história da cidade. Natal – sustenta – tem vergonha de si mesma e, por isso, sempre precisa de algo grande para mostrar.

“A capital ainda alimenta o mito da cidade cosmopolita, sem nunca ter sido. A Casa é um patrimônio da cidade, não só pelo prédio em si. O prédio, hoje, quase não tem valor, porque as pessoas olham para ele e não se identificam, como se fosse uma página em branco. Trata-se de uma instituição popular, ligada ao movimento estudantil. Nossa história sempre valorizou os prédios vinculados à elite, aos governos”, observa. 

O levante

Foto: Elpídio Júnior
O prédio que abriga a CERN é da segunda metade do século 19. 

Em 23 de novembro de 1935, quando ainda era sede do Batalhão de Segurança, o prédio da Casa do Estudante serviu de cenário da Insurreição Comunista. Um grupo de militares natalenses, inspirados no movimento tenentista, aliado aos civis, iniciou uma revolta que deveria ganhar outros focos no país. 

O levante se opôs ao autoritarismo do governo de Getúlio Vargas. Os rebelados queriam derrubar o presidente e instituir um “governo popular revolucionário” no país. A “República Vermelha” terminou sendo derrubada pelos homens da Força de Segurança Nacional. 

Durante quatro dias, a capital do Rio Grande do Norte teve um governo revolucionário liderado pelo comunista João Praxedes de Andrade. João Maurício brinca ao recordar o episódio, dizendo que Natal foi comunista antes de Cuba. 

O levante deveria ter sido uma ação simultânea em todas as regiões do país, como havia planejado Luís Carlos Prestes e sua mulher, Olga Benário Prestes. A capital potiguar, entretanto, acabou se antecipando aos fatos. No dia 25 de novembro do mesmo ano, o movimento estourou em Recife (PE). Dois dias depois, a rebelião espocaria no Rio de Janeiro (RJ). 

João Maurício aponta a falta de comando, de organização e de comunicação como fatores que colaboraram para o insucesso do movimento. “Quando o movimento eclodiu no Rio de Janeiro, capital federal à época, já havia sido desmanchado no Rio Grande do Norte

FONTE - NOMINUTO

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